19 de outubro de 2016

Elbe


Os ferries sulcavam as águas nocturnas e levantavam sonhos ondulantes que sob aquelas avançavam até virem realizar-se contra o estreito cais donde eu observava tudo. A noite, a água, o extenso porto iluminado na outra margem. Os primeiros, já a embarcação seguia a montante, realizaram-se com tal força e energia, que eu sorri de medo e surpresa. Eu estava ali, só, sobre aquele passadiço pouco largo, escuro, resguardado pelo enorme edifício atrás, sobranceiro às águas negras do rio, confortavelmente envolto na sombra da noite, aquém das luzes do porto de Hamburgo quando, de repente, o calmo flume se encapelou. Parecia impossível, a transformação; surpreendente como, sem eu dar por isso, o rio se transformara, se avolumara de pequenos monstros oníricos que rolaram até ao pé de mim. O Elbe estava cheio de sonhos que se erguiam a cada ferry que passava; cheio de sonhos como eu mas, contrariamente a ele, que os realizava com força contra a margem, eu só podia sonhá-los. Fantasma de todos os sonhos por realizar, pairava só ao longo do Elbe, a ver sonhos a realizarem-se. Os meus, por realizar, não perdiam a sua beleza por isso. Talvez mesmo aí residisse o maior do seu atributo. Também não era altura de eu realizar nada. Era altura de contemplar. As ondas escuras realizavam-se quais sonhos em espuma branca, ao embaterem contra a dura e baixa parede do cais, que o impacto atirava um pouco acima. Era como se esses pequenos monstros negros que lestos rolavam sob a superfície da água, como se debaixo de um manto negro avançassem imprudentemente camuflados, me quisessem mostrar como se acorda, como acordavam do seu sonho hermeticamente roliço para um florescimento esparso, branco, que reclamava o seu espaço no ar, na vida, na realidade. E eu era já todo vontade de os imitar. O espírito irracional do orbe é o seu impulso e força naturais. Eis porque o orbe se realiza sem hesitar; eis porque não há por que hesitasse. Mas tudo se acaba realizando, de alguma forma. Mesmo o que está parado. Estar parado é aliás o princípio de toda a realização, como vimos no caso do rio, que passou de um estado a outro. E é também realização em si. Se por hipótese se ficasse parado uma vida inteira, não seria fazer mais do que a vontade exige, e no final realizar-se-ia sempre em morte. Nada se perde no fim. Estar parado, ou pairar como o faz o contemplador, nada tem de absurdo. Ou as águas do Elbe só fariam sentido quando um ferry as sulcasse ou uma corrente as motivasse. Não. Não são precisos os ferries, não é preciso nada. Basta imaginar-lhe a profundidade, negra, impenetrável. Basta imaginá-la para saber que é exactamente do fundo, estanque, cerrado, sufocante, que tudo sai e que, de uma forma ou doutra, mais tarde ou mais cedo tudo há-de sair para vir respirar, explodir. A própria vida não faz senão sonhar a morte, realização última do processo onírico, derradeiro despertar do eterno, eterno fluxo do devir. No entanto, nada disto importa ao Elbe, que no entanto se move e se cumpre. A sua beleza reside na sua indiferença. Que tão-pouco indiferença é. Pois tudo o que o Elbe é, tudo o que naquela noite fora, não é nem foi mais do que eu a sê-lo.

25 de maio de 2015

O FOGO E O NENÚFAR


NENÚFAR: Se digo que gosto dos pássaros, é porque os pássaros são livres.

FOGO: Livres? O que fazes, é apenas projectar a liberdade nos pássaros, pois, na realidade, não são mais livres do que tu ou do que eu. Só porque os pássaros te inspiram liberdade, isso não faz deles livres. A noção de liberdade que lhes atribuis, não se deve senão ao facto de estares sujeito à condição que é a tua.

NENÚFAR: E que condição é essa que é a minha?

FOGO: Boiares, de face voltada para o céu e raízes presas ao fundo. A ideia daquilo que está longe e daquilo que se movimenta tornou-se, por isso mesmo, desejo em ti.

NENÚFAR: Mas até a ti, que tens a possibilidade de te movimentares, não te é indiferente o céu distante, ou é?

FOGO: Porque sei e aceito que o céu está longe e que não o posso ter, aprendi a dar-lhe o devido uso: quanto mais alto se encontra, mais alto as minhas chamas alcançam! Por que não haverá de ser essa, aliás, a sua verdadeira função, conceder-nos espaço para o que temos de mais expansível, em vez de o reduzirmos a uma miragem inalcansável, de que só os pássaros e os cometas podem desfrutar?

NENÚFAR: Mas não é natural que contemple e anseie e me desanime por tudo ser inalcansável? Contemplar é o que eu sou, dada a minha condição. É a minha natureza. Não fui feito para alcançar, mas para mirar daqui do meu canto, parado, entre estas águas e o Universo distante. Até porque, para mim, não é só o céu que está longe mas todas as coisas, com a excepção destas águas, do lodo no fundo e da brisa que, ainda assim, passa sem nunca se demorar.

FOGO: É isso o que és ou o que simplesmente fazes?... Todos estamos confinados a uma condição que, a menos que deixemos, não nos há-de condicionar totalmente. Também a mim me é natural contemplar. E acredita que não ignoro que, se como tu também eu contemplasse sempre no mesmo sítio, algo seria obviamente diferente. No entanto, no que toca a condição, tudo vai dar ao mesmo: não existe animal ou vegetal que dela não dependa. Mas a busca pelas qualidades que, mesmo apesar disso, cada um potencialmente possui, pode fazer alguma diferença, se propriamente encontradas e usadas. É isso que me alimenta as chamas e as lança, numa volitiva dança, em direcção ao zénite. Contudo, não é o zénite que me interessa, mas o potencial espacial que ele me disponibiliza. Se a tua natureza fosse puramente contemplativa, natural seria que te não pusesses a sonhar com aquilo que não és e com aquilo que não tens. Se contemplar fosse aquilo que és em essência, aceitava-lo simplesmente, confortável aí no teu canto, parado, entre essas águas e o Universo distante. Mas o que acontece é que desejas. Queres voar, ser o pássaro. E desejar é, já por si, contrário ao que dizes ser-te natural. Portanto, talvez não te seja assim tão natural. Pelo menos é o que avalio, daqui desta margem, donde já outras vezes conversei contigo. E o que mais temo, Nenúfar, é que tenhas desistido de ser o pássaro que mora em ti, o pássaro da tua imaginação, cujo correspondente real, que vês passar lá no alto, é comparativamente muito menos livre. Não obstante, desejas ser como ele... E à força de tanto o desejares, de tanto desejares o pássaro errado só por ele te parecer livre no seu voo, é bem provável que te tenhas inconscientemente acomodado à dor de não o seres, que é a mesma coisa que desistir, em vez de te esforçares por dar uso à tua plasticidade, por meio do único instrumento possível de libertação ― a imaginação consciente de si. Eis a nossa verdadeira natureza, eis onde tudo reside ― na plasticidade da nossa imaginação!

NENÚFAR: Não sei como dizer que não a isso, mas também não o saberia pôr em prática. Se me lançares do teu fogo, talvez também eu possa arder mais alto!...

FOGO: É precisamente isso que tenho vindo a fazer, sem sequer precisar de recorrer às minhas chamas... Não é chamuscado que te quero, ó verde e florígero Nenúfar!

NENÚFAR: Mas eu, caro Fogo, estou preso ao lodo, mesmo no pego deste pequeno lago! Como queres que não pense que me gozas, por mais sentido que discirna nas tuas metáforas? Que mais poderia eu ser do que isto que sou? Já tu, tu não dependes de quaisquer raízes! Não estás atado ao chão!

FOGO: Não da mesma maneira que tu, é certo, mas também eu dependo do solo para apoiar e alimentar as minhas chamas. Tal como o lodo está para a tua bela flor, está o casculho para as minhas chamas! Somos diferentes mas, se formos a ver, o princípio que nos faz ser o que somos, é semelhante. Só que eu trabalho para que as minha chamas não sejam como as chamas dos demais Fogos que há por aí e que não tardam a extinguir-se, seja por arderem demais, seja por nunca o terem aprendido.

NENÚFAR: Compreendo, mas insisto, se não ardo, como poderia arder? Também tu, porque ardes, te manténs à margem das minhas águas...

FOGO: Teimas nesses paralelismos realistas por parolice! Preferes as armadilhas da retórica à verdade da florescência, tu que floresces?!... Só o misto de frustração e descrença nascido da cedência a essa falácia, que há anos alimentas com base apenas na crença de tudo te parecer insuperável, te faz desacreditar no teu próprio potencial. Já para não falar que nenhum dos teus semelhantes aí em teu redor, conformemente afeitos a uma indolência inveterada, alguma vez te convenceu ou sequer tentou convencer do contrário, reduzidos eles próprios a não mais do que boiar, tal como bem testemunho daqui. Mas não verás tu que, apesar de tudo, apesar do lodo, geras tão magnífica e radiante flor-de-lótus?! Tu és ela ― e ela é a tua verdade.

O Fogo despediu-se por fim do Nenúfar e seguiu caminho, deixando-o profundamente absorvido. Sozinho, de olhar fixo na sua flor-de-lótus, que até então sempre vira suspensa acima de si, parecia-lhe agora como se flutuasse no próprio azul do céu, e com uma distinção que nunca antes lhe reconhecera, pois que, de repente, as suas pétalas começarem numa dança maviosamente ondulante e reluzente, como se a flor se tivesse transformado num pequeno sol, cuja luz, contra todas as probabilidades ― ou pelo menos como jamais o Nenúfar poderia ter achado possível ―, de facto o começava a alumiar e a enobrecer.

THE FIRE AND THE NENUPHAR


NENUPHAR: If I say that I appreciate birds, it's because birds are free.

FIRE: Free? You're but projecting freedom on birds, because, as a matter of fact, they aren't more free than you and me. Just because birds inspire you with freedom, doesn’t make them free. The notion of freedom that you attribute to them stems merely from the fact that you are subject to this condition of yours.

NENUPHAR: And what is this condition of mine?

FIRE: To float, with face towards the sky and roots attached to bottom. Therefore, the idea of distance and movement has become a desire in you.

NENUPHAR: But you yourself are not indifferent to the distant sky, are you, even though you are able to move around?

FIRE: Since I know and accept the sky is distant and I can’t have him, I have learned to bestow on him his proper use: the higher he is, the higher my flames reach! Actually, why shouldn’t we assume that his true function is granting us the space to what we hold more expansible, instead of reducing him to an unreachable mirage which only birds and comets can take pleasure from?

NENUPHAR: But isn’t it natural that I contemplate and long and despair because everything is unreachable? To contemplate is what I am, given my condition. It is my nature. I was not meant to reach, but to gaze from this nook here, motionless, between this water and the distant Universe. Besides, for me, it is not only the sky that is far but all things together, except this water, the mud at the bottom and the breeze that, nevertheless, comes only to pass.

FIRE: Is that what you are or simply what you do?... We are all confined to a condition that, unless we let it, won't utterly condition us. Contemplating is also natural to me. And believe me, I do not ignore that, if I would always contemplate from the very same spot like you do, something would obviously be different. Still, as for condition itself, everything comes to the same: there's no animal or plant that doesn't depend on it. But the search for each one's qualities, which, even despite everything, we potentially own, can make some difference, if properly found and used. This is what nourishes my flames and triggers them in a volitional dance towards the zenith. However, it is not the zenith I'm aiming for, but the spatial potential that it offers to me. If your nature was purely contemplative, it would be natural that you wouldn't drown yourself in dreams about what you are not and about what you have not. If contemplating were what you are in essence, you would simply accept it, there, comfortable in your nook, motionless, between the water and the distant Universe. But the thing is that you do happen to desire. You want to fly, to be the bird. And to desire is, in itself, opposite to that which you claim as naturally belonging to you. So maybe it isn't much like that. This is, at least, how I appraise it, here from this bank, from where, as some other times, I have already spoken to you. But what I fear the most, Nenuphar, is that you've given up being the bird dwelling within yourself, the bird of your imagination, whose real correspondent, that you see passing by up there in the sky, is comparatively much less free. Nevertheless, you wish to be like him... And by force of desiring it so, of desiring the wrong bird that much, just because he seems free in his flight, it's quite probable that you have unconsciously accustomed yourself to the pain of not being it, which is the same as giving up, instead of making use of your plasticity, by means of the only possible instrument of liberation—the self-aware imagination. Here's our true nature, here's where everything lies—in our imagination's plasticity!

NENUPHAR: I do not know how to deny that, but I also wouldn’t know how to put it into practice. Perhaps if you cast me some of your flames, I could burn higher myself!...

FIRE: That's just what I have been doing, without even having to turn to my flames… I'm not willing you scorched, O green and floriferous Nenuphar!

NENUPHAR: But I, dear Fire, I'm stuck to the mud here, right on the bottom of this pond! How can you not expect me to think that you're mocking me, despite how much sense I discern in your metaphors? What else could I be than this that I am? Now, you, you do not depend on any roots! You’re not tied to the ground!

FIRE: Not in the same way as you are, that's for sure, but I am also dependent on the soil to rest and to nourish my flames. Just like the mud is to your beautiful flower, the husk is to my flames! We are different but, if we look closer, the principle that makes us who we are is similar. The difference is that I do endeavour so that my flames won't be like the flames of some other Fires out there, who won't take long until they vanish, either from burning too much or having never learnt how to.

NENUPHAR: I understand, but I insist, if I do not burn, how could I burn? You too, because you do burn, won't step beyond the bank of my water...

FIRE: You insist on those realistic parallelisms out of boorishness! Do you prefer the traps of rhetoric to the truth of blossoming, you that blossom?!... It's but the mix of frustration and disbelieve alone, born out of giving up to that fallacy you’ve been feeding on for years already, based solely on the belief of how insurmountable everything appears to you, that makes you disbelieve your own potential. Let alone the fact that none of your fellow companions right there around you, accordingly stuck to an inveterate indolence, have ever convinced you or even tried to convince you of the contrary, being themselves reduced to nothing but floating, just as I can perfectly witness from here. Won’t you see that, in spite of everything, in spite of the mud, you generate such a magnificent, such a radiant lotus flower?! You are her―and she is your truth.

The Fire finally bade the Nenuphar farewell and went away, leaving him deep in thoughts. While staring alone at the lotus flower, which, until then, he had only seen suspended above him, it seemed to him now like it was floating in the very blue of the sky, and in a way so distinctive as never before he had recognized it, since, suddenly, its petals started a dance in which they gently waved and shined, as if the flower had transformed into a little sun, whose light, against all odds―or at least as the Nenuphar could never have guessed possible―, actually started illuminating and ennobling him.

. . .

Original text by Tiago Rosa
Translated to English by Tiago Rosa
Proofread by Stephanie Fink


16 de setembro de 2014

Christianshavns Kanal


A gentil chuva caía no canal como se no breu da estrada, asfalto feito água, entre as sombras da luz parca que os candeeiros derramavam, passas e tragos. As ruas estavam desertas e não levavam a lado nenhum. Where there's no one, you can never feel lost. Tudo plenamente inserto no momento. Nada era para além dele. Como se o momento incluísse todos os outros como os barcos alinhados nas margens do estreito canal. O enlevo praticava o equilíbrio na noite alta e líquida, densa, suave, que escorregava do céu para a cidade confortando-a de silêncio escuro. Não só a cidade mas o mundo, a existência toda. Chovia noite sobre tudo. It seems this is a balanced town... A cascata do Universo caía ternamente e tudo ternamente caía. O som aveludado das bátegas sobre a superfície indistinta do aquoso asfalto do canal fazia inexplicavelmente sentido. Depois, os rios das ruas voaram-me carinhosamente dali.

21 de abril de 2014

Das Interdependências


É preciso ter em atenção
Que eu podia ser melhor do que o que sou
Se as pessoas com quem me dou
Fossem melhores do que o que são.


                               2010

24 de fevereiro de 2014

Sol


Esta noite sonhei com o Sol e tive uma iluminação quando ele me disse: «Eu acredito em Ti.»

A Rosa Amarela iluminava-me e eu estava ali, existindo de luz. E através da luz, rodeado de mundo, uníamo-nos, eu e o mundo. E no mundo, apesar da distância que nos separava — a mim de ti — também tu lá estavas. Separados sim no mesmo mundo — tu no teu corpo, eu no meu — mas sob o claro reconhecimento do mesmo signo solar. Ambos descêramos dele, dependurados nos seus raios, substanciados deles, para virmos fazer na Terra a luz etérea com que ele nos insuflou de espírito, para que nos elevássemos de amanhecer e disséssemos, já com a voz que nos é própria, Eu acredito em mim.







This text is part of the artistic photobook named "Blumen" (Flowers, in German), by the photographer Irene Cruz, presently living and working in Berlin. She invited me, without knowing me personally or even being able to guess what to expect from me as a writer, to even so create a poem in Portuguese (language wasn't also a barrier, as she saw it) to be part of the said work. The process went the same with the other writers/poets partaking the project. Each one - from several nationalities - writing under the influence of two or three of her photos, which, all together, coumpounds the photobook. My series was called "Sol". This was precisely Irene's idea: to risk. I accepted the risk as well and, three days later, the text above was given birth. The book is ready and can soon be acquired via internet.

1 de maio de 2013

Levantar-se

Somos dos que se levantam sempre, por mais fundo o fundo. Temos garras para escalar e trazemos a vida presa nos dentes. Quando nos espalhamos por terra, ainda a lambemos com a língua toda e, estendidos no solo, ocorre-nos com exultação, Estamos deitados sobre a Terra e abraçamo-la! E a nossa consciência, nesse momento, como que se eleva em amplitude à esférica atmosfera, passando depois em distensão a todo o Universo, ad infinitum. E por essa via deixamos de ser só nós, para sermos mais além. Andamos às tantas a saltar de estrela em estrela, a brincar de orbe em orbe. Sem sabermos o nome de nada, internamos todas as coisas, certos de que é assim para cada um de nós. Depois, quando voltamos a nós, nunca voltamos só a nós. Levantando-nos do chão estendido, prosseguimos pé ante pé, olhando sobre o ombro com desapego e amor. Tão-pouco nos sacudimos do pó. É parte de nós. Trazemos agora menos um dente, verdade. Mas azar, sempre ficamos com mais espaço.



To Rise Up


We are those who will always rise up, no matter how deep the deep. We have claws to climb and, with our teeth, we seize life. When we fall to the ground, we lick it with the entire tongue and, while streched out, it occurs to us with exultation, We are lying upon the Earth, embrancing it! And it is as if, in this moment, our consciousness billows into the amplitude of the spherical atmosphere, distending then to the whole Universe, ad infinitum. Thus, we cease being just a self and rather expand into further more. Suddenly, we find ourselves leaping from star to star, bouncing from orb to orb. Unaware of names we penetrate everything, sure that this is such for each of us. Upon return to our self, we return not solely to our self. Rising up from the stretched soil, we proceed step by step, looking with nonchalance and love over the shoulder. We even neglect to shake off the dust. It's part of us. We come bearing one tooth less, it's true. Too bad though, we always gain more space.



. . .

AVISO


Queria levantar-me da cama de forma a aproveitar o sol ao máximo do tempo que ele pode ser aproveitado, que é desde que ele nasce até que ele morre, e assim todos os dias, desde quando nascesse até que morresse. Mas a vida não andava bem, apesar de a vida ser sempre a mesma. São as disposições que dispõem a disposição da vida, que não é da vida mas nossa, porque a vida anda sempre igual a si própria, só as disposições, portanto, é que variam. E a minha disposição andava avariada. Encontrei um conhecido na rua que me disse que andava como eu, avariado, e que tinha um conhecido que andava como nós, e que esse tinha um amigo que, também andando assim, conhecia um outro que também não andava lá muito bem, e que essoutro sabia outrossim de um outro que conhecia um outro que conhecia um outro que conhecia um outro e, por serem tantos a andar assim, ainda nos demorámos ali na conversa durante algum tempo, pelo que o tempo máximo para aproveitar o sol era já mínimo, e lá se ia mais um dia. Ainda podia aproveitar a noite, pensei, mas estava tão cansado do dia desaproveitado que me fui deitar. Durante a noite que dormi, sonhei com um pensamento,


Muda o que está mal!


WARNING

I wanted to get up from bed to enjoy the sun as much as possible, since it rises until it sets, and so every day, since the rising until the setting. But life wasn't all right, even though life is always the same. Only moods can change the mood of life which is not life's mood to be had, but ours. Life is always reflective of itself, equal to itself, only moods therefore vary. And here, my mood was broken. I found someone I knew in the street and he told me he was feeling like me, broken, and that he knew someone that was feeling just like us and that this someone had a friend that, feeling quite like us, also knew someone else that wans't whole either, and that this friend of this someone knew someone else that knew someone else that knew someone else that knew someone else and, for there were so many feeling this way, our conversation kept us lingering on chatting for a while, until nothing was left of the sun and another day had passed. I could enjoy the night, I thought, but I was so drained from the wasted day that I went to bed. During the night, asleep, I dreamt a thought,



Change what's wrong!
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Treva Universal

Quero ir brincar para a praia à noite quando a espuma de uma ondulação pequena fosforesça de uma lua acesa sobre a paisagem, lasciva, ingénua, propositada. Quero ir brincar contigo sejas tu quem fores. Se fores tu quem lá estiver — sejas tu quem fores — será contigo com quem hei-de brincar. Se fores tu — sendo tu quem és — ainda melhor.

Brincaríamos nessa noite sem ciência nenhuma. Neófitos sencientes. Libertaríamos risos insanáveis de tão livres e ignorantes. Nem nos incomodaria a areia que se haveria de entranhar em nossos orifícios, antes riríamos na insciência irrevocável do nosso estar simplesmente ali. Seríamos a própria areia: cada grão ridente de luar. Uma celebração sem o sabermos — nada mais cognoscível.

Nada mais cognoscível — não saber nada!

No fim, eu dentro de ti e tu me cobrindo, que é estar dentro e fora de tudo, que é estar dentro e fora de nada. Inidentificáveis, insondáveis. Como o próprio Cosmos. Abstracção concreta. Sendo o que imanentemente somos: treva universal. 



Universal Darkness

I want to play on a beach at night when the foam of a small undulation appears phosphorescent of the brightly lit moon hovering above the landscape, lascivious, naive, willful. I want to play with whoever you are. If it's you who is there — whoever you are — it'll be you I'll play with. If it were you — being you who you are — all the better.

Unaware, we would play into the night. Sentient neophytes. Free and ignorant, we would release untamed laughter. We wouldn't even be bothered by the sand that encroached our orifices. Rather we would laugh at the irrevocable nescience of our mere being there. We would be the sand itself: each cheerfully moonlit grain. A celebration without knowing it — nothing more cognizable.

Nothing more cognizable — not to know a thing!

In the end, me inside you and you wrapping me, inside and outside of everything, inside and outside of nothing. Unidentifiable, unfathomable. As Cosmos itself. Concrete abstraction. Being what we immanently are: universal darkness.





English version: Tiago Rosa
Proofreading: Faye Mullen

20 de janeiro de 2013

Sou de facto o Diabo


Talvez, no fundo imenso do abismo, Deus mesmo me busque, para que eu o complete [...], para que a vida e o que desejamos dela fossem uma só coisa.

A Hora do Diabo, F. Pessoa, Assírio&Alvim

23 de outubro de 2011

Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa


Uma publicação Saída de Emergência
Esta obra trata-se de uma antologia de treze contos de vários autores, entre os quais me encontro com o título O Inconsciente. 

A editora Saída de Emergência lançou um concurso de contos em inícios de 2009, dentro do género literário da pulp fiction, ao qual concorri. Soube, por volta de Outubro do mesmo ano, que o meu conto tinha sido seleccionado para integrar o projecto. Encontrava-me em Hamburgo há já um mês, e onde permaneceria por mais dois, sozinho mas contente, pelo que o fiquei mais ainda. A notícia era sinónimo de que um texto meu ia ser, pela primeira vez, publicado em livro. Entretanto passaram-se cerca de dois anos sem que o projecto fosse levado avante, com muita pena de todos os envolvidos. A 21 de Outubro de 2011, a Antologia vê finalmente a luz do dia. 

As Origens d' «O Inconsciente». O meu conto foi primeiramente submetido a um outro concurso de contos, criado pelo festival de cinema de terror Motelx, de 2007, um concurso igualmente consagrado ao género do terror. Aliás, foi precisamente devido a este concurso que decidi escrever o conto. Já há alguns anos, quando me propus prosseguir com a criação literária (abandonado o verso, dava lugar à prosa), decidi que haveria de tentar as várias áreas e géneros literários (desde que, claro, o achasse plausível dentro do meu registo e interesse). Um exercício a que, na altura, chamei de «poligrafia»: através da literatura infantil, juvenil e adulta, deste género ou daquele, exploraria, ao meu estilo, temas de interesse pessoal. Sem compromissos, porém. Projectos tenho-os, em desenvolvimento, mas é este conto o primeiro a sair em formato físico. O Inconsciente foi criado já dentro daquela intenção poligráfica que menciono acima. Quis pôr-me à prova, enquanto potencial escritor, dentro de um género que não era o meu. Talvez por isso o resultado não tenha estado à altura: O Inconsciente não é um conto de terror. A narrativa acaba antes por revelar que o «terror» tem outra face que não a do «monstro-protagonista» (que nem sequer é monstro!) da história. Talvez também porque, por si só, o género do terror não fazia, nem faz, parte dos meus objectivos literários. O ambiente, e o sangue, talvez provoquem um certo horror, ou inquietação, como o disse um amigo meu, o Gonçalo Neto, designação que também eu prefiro, pois que, tal como eu e um outro meu amigo, o Frederico Correia, concluímos, existem cenas cuja violência é razoavelmente gráfica. Mas a minha intenção é que o sangue derramado seja, aos olhos do leitor, justo (dentro do seu contexto)... Se em parte falhei no exercício a que me propus (o da poligrafia), foi, contudo, uma falha bem-vinda, não só por ter sido seleccionado para a Antologia que aqui divulgo mas porque o resultado do que escrevi me agradou. Constatei que jamais poderei escrever o que quer que seja sem que nisso me reveja; que jamais poderia criar para responder simplesmente a um género ou, ainda menos, para agradar a um público. Acabei então por escrever sobre algo que é do meu interesse e que, em vez de assustar (se bem que o terror possa muito bem ser mais do que isso), convida a reflectir sobre a mentalidade humana que, a meu ver, se encontra ainda cheia dos vícios e dos medos herdados de uma estrutura mental entrevada, preconceituosa, que, nesta ficção, faço encarnar em monges, o que muito se deve, naturalmente, ao papel não menos mau que a Igreja desempenhou ao longo da História, e também que desses vícios de percepção podem resultar consequências graves... O conto trata-se, então, de uma espécie de alegoria, que remete para pontos como a cegueira do dogma e da crença, e como ambas as categorias podem castrar a liberdade e o potencial humano. O terror do preconceito ainda existe, difundido pelo mundo como um legado peçonhento, como uma praga que persiste: é essa a preocupação que subjaz à intenção moral do texto. Assim, a narrativa vela antes, aos meus olhos, por componentes tácitas de cariz reflexivo, com a devida literatura em volta a enfeitar, cujo ambiente, felizmente, parece enquadrar-se nos parâmetros da Antologia para que fui seleccionado. De resto, a minha ligação com a literatura pulp passa apenas por três traduções que fiz de três contos de H. P. Lovecraft (Ed. Saída de Emergência, vols. I e II) e por umas leituras de BDs de Conan, o Bárbaro.

O título do conto: uma perspectiva analítica. O título, «O Inconsciente», é o nome que o protagonista adquire na história. Foi escolhido como jogo de palavras, ou metáfora, para o inconsciente recalcado que a Psicanálise nos deu a conhecer, isto é, o espaço mental onde se desconhecem os factos por se encontrarem toldados. O protagonista habita um subterrâneo, onde se encontra fechado, anestesiado, à margem do real. O subterrâneo e o protagonista interagem, então, como um só, sendo este um produto daquele e aquele a realidade que este assimila sem questionar. O Inconsciente é a criatura cuja existência é submetida à clausura pelo Consciente repressor, que no conto adquire a forma de monges soturnos que impõem ao Inconsciente o «recalcamento». Os monges representam a censura, o preconceito, essa força maior contra a qual, mais tarde, o protagonista se rebela, e de uma forma comportamentalmente desastrosa, resultado daquilo que foi reprimido à força e mantido num estado de latência anormal vindo depois à tona. Como tudo o que foi já profundamente lesado e não é possível reparar, há um inevitável retorno ao «recalcamento» por parte do protagonista... Em suma, o que se quer dizer com isto? Quer-se dizer simplesmente que o melhor é abdicar de imposições, caso contrário as consequência poderão revelar-se graves.

O Inconsciente levou 24 dias a ser escrito, segundo me lembro. É, para mim, pouco tempo, que preciso dele para escrever e ajeitar o texto, intervalar e voltar a ele. Mas por acaso a caneta fluiu (por acaso até foi escrito ao computador). Talvez a tensão imposta por um prazo tenha tido influência. Quando descobri o concurso do Motelx, 24 dias era o tempo que restava para as submissões. Comecei então a escrevê-lo. Diante do ecrã, surgiu-me a frase: «Do esgar quadrado da sua boca aberta vertia, crispado em degraus de som cadente, o riso evidente da demência danosa.» Serviu-me de mote para prosseguir. Claro que, posteriormente, mesmo depois de saber que não tinha sido seleccionado, lhe fiz vários melhoramentos. E quando soube que ia ser publicado na Antologia pulp, mais ainda. Todavia o texto foi apenas mexido a nível de pormenores estilísticos, mais uma frase ou pequena ideia extra. A história e seu intuito permaneceram intactos. A Antologia consiste ainda, em termos gerais, num outro aspecto que lhe oferece interesse extra: cada autor tem uma biografia fictícia. Passo a explicar. A pulp fiction é um género literário que remonta a 1896, difundido no formato de revista nos EUA, inicialmente, e que, julgo não estar longe da verdade, atinge maior expressão estilística e temática com Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes), H. P. Lovecraft (The Call of Cthulhu) e Robert E. Howard (Conan, The Barbarian), lá por volta das décadas de 20 e 30 do século passado. Fica aqui uma ideia para os menos entendidos no género, como eu. Mas existem mais autores que conheço e que não sabia fazerem parte deste género, que é bem mais abrangente do que eu imaginava. Um pouco à guisa do género da Ficção Científica, que também é mais do que aparenta. Portanto, esta Antologia ficcionada consiste em fazer de nós, autores, pessoas que teriam existido entre as décadas de 20 e 70 do século XX, em Portugal, reinventando assim um género que nunca àquele tempo existira no país. Na minha pseudo-biografia (que na obra precede o conto), morri com trinta e um anos e vi, enquanto ainda gaiato, Sidónio Pais a ser assassinado. Não me lembro de nada! Devia ser do álcool que, quando já adulto, bebia: segundo também o meu biógrafo, eu era muito dado à noite. Toda esta conjuntura ficou a cargo do organizador do projecto, o Luís Filipe Silva, que abre o livro com uma introdução que tratará de pôr o leitor a par deste curioso entremez. 

As ilustrações. Não podia deixar de falar nisto. Quando me foram apresentadas as ilustrações que acompanhariam o meu conto, fiquei estupefacto. Estavam bem-feitas, muito interessantes até. Mas não tinha sido isso a causa da minha estupefacção. O que assim me deixara, fora o facto de não ilustrarem, senão por meio de referências vagas, a história que eu escrevera. Havia um grande exagero naquelas imagens, comparativamente ao texto. Foi-me depois explicado que, de alguma forma, também assim o havia sido lá nos idos tempos de sucesso da pulp fiction, e que, se era para fazer uma versão dos anos de ouro da pulp que Portugal não teve, seria preciso situar o projecto, também no que tocava às ilustrações, no contexto abordado. Por isso, para quem se deparar com esse desfasamento, fica já preparado. Aperceber-se-ão que as personagens ilustradas nada têm que ver com nada. É como se fossem ilustrações de outro conto qualquer e estivessem ali ao engano... Mas o fundamento é que este é um projecto com tema, e que segue esse tema. Pretende recriar algo num registo tal e qual existia na pulp de há cerca de oitenta/noventa anos e, com base nisso, fac-similar os anos de ouro de um género que nunca teve expressão no nosso país. E assim se fez. Os autores pulp faziam os seus textos ser acompanhados de ilustrações que muitas vezes compravam já feitas, quando não tinham quem lhas fizesse, cujo resultado, nem sempre o melhor, é também o que esta Antologia pretende recuperar.

Bem, e agora é ler!

~

Este conto dedico-o, aqui, ao Gonçalo Neto e ao Frederico Correia, que a ele estiveram de alguma forma ligados aquando da sua criação.

5 de agosto de 2011


A consciência é
Não haver dentro e fora da Cabeça
Apenas o espaço que atravessa tudo
Como não haver
Dentro e fora do Universo
Apenas um espaço
                                                                           contínuo

8 de dezembro de 2010

Maria

Maria e a sua Frustração eram casadas há vinte anos. A Frustração passava o tempo sentada no sofá, depois do trabalho e aos fins-de-semana, à espera que Maria a chamasse para a mesa. Há vinte anos que era assim. Maria pensava, É melhor que estar sozinha. Há vinte anos o iterava, como sentida e silenciosa reza. Maria era uma mulher de índole fraca, cuja tramas dos séculos haviam tornado numa verdadeira empreendedora da nutrição da sua Frustração, a que ela se dedicava sem questionar. Pouco conhecia da vida para além disso. Jamais alguma vez havia nela reflectido com suficiente desapego, pois que sempre a tinham ensinado a pegar-se muito às coisas, para que não ficasse sozinha. Sempre a tinham ensinado que, sozinha, ela não tinha valor. Por vezes, Maria sentia muitas coisas estranhas, confusas e controversas em relação à sua vida e à sua pessoa, mas não as sabia compreender, muito menos gerir. Após esses curtos momentos de uma quase-consciência, não mais que sensível, acabava sempre, no momento potencialmente mais crucial, por reprimir tudo, e recidivamente tornava a si, à Maria, àquilo que haviam feito dela. A sua Frustração pouco lhe ligava, senão por interesse de algo, como a comida ou a roupa passada. Nas férias costumavam ir até à terra. A Frustração não sabia cozinhar, nem engomar, por isso se casara com Maria. Mas a Frustração sentia-se frustrada e, por proximidade, costumava descarregar sobre Maria. A verdade é que a Frustração também havia sido, desde pequena, encaminhada para se vir a frustrar, pelo que era o que era. Apesar de tudo, Maria garantia-se, Assim estou segura. E julgava de facto estar. Para além do mais tinha os filhos, frutos de duas noites de união com a sua Frustração, aos quais ia buscar a força para recalcar, sob o peso de fantasiosas projecções acerca da unidade familiar, a grande desilusão que a sua vida era. E assim ia conseguindo força, ao longo dos muitos anos, para continuar junto da sua Frustração. Fiel, cansada e iludida, tal qual o preceito a incumbia.

Certa tarde, quando menos esperava ― preparava-se ela para começar a fazer o jantar de todas as noites ―, a sua Frustração levantou-se do sofá e foi ao pé dela dizer-lhe que se ia embora... Para nunca mais voltar! Estava farta de ser frustrada! Maria não queria acreditar no que ouvia. Ficara atónita. Não queria crer que estivesse realmente livre da sua Frustração, depois de todo o esforço e empenho de uma vida. Os olhos de Maria inundaram-se de lágrimas. Lágrimas que, embora de alívio, ela não podia entender como tal, pelo que desgostosas lhe rolaram sobre as faces.

Desse ponto em diante, passou o resto da vida sozinha. Não conseguira conceber estar com mais nenhuma Frustração, para além da única que ela amara, que ela podia amar. No rosto, um perene ar de tristeza, de quem nunca conseguira perceber por que tinha sido deixada, ela, a maior empreendedora da sua Frustração! Nunca conseguira aceitá-lo ― nunca conseguira aceitar que estava livre. Enfim, sempre tinha as recordações, a sua família (que dela só então começou a sentir pena) e os filhos da sua Frustração.

23 de outubro de 2010

Espéculo


Vim de onde ainda não era, sem nada vestido. De um sítio desconhecido, que tão-pouco é sítio. Donde vim, nem o sítio nem eu éramos. Agora, neste sítio que é, onde me encontro, já sou, como o sítio. Daqui a algum tempo, depois de por aqui ter passado, regressarei ao não-ser. Mas ao a seguir, que será igual. Mas eu, diferente: irei vestido. Pois ainda hão-de haver pessoas que me quererão ao seu nível, ignorando o facto de que, por essa altura, tão-pouco já me aguentarei em pé.

31 de agosto de 2010

Ego sum qui sum


Tu que me vês daí, aqui sentado sobre a esbatida, húmida e dura areia, molhado, torrefeito pelo teu Sol. Contemplo-te sem perguntas porque não as há, não as pode haver: no-las deste sem a hipótese de no-las responder. Há perguntas. Mas uma pergunta só é válida quando a resposta não é de natureza írrita, impossível. 

Existes na minha cabeça porque te penso. Eu existo como se me tivesses pensado. Porém parece-me que não te sei como tu a mim. Contudo ainda, imagino que me dizes: «Tens-me frente aos olhos e insistes em não me ver.»

Entendo-te sem te compreender (se bem que às vezes te compreenda mas te não entenda). Mas eu percebo que não me possas falar. Eu percebo que não hajas o que dizer. Também eu não falo contigo mas Comigo sobre ti. 

Tu — és um mágico que me encanta, e não és senão o Encanto que desse mágico emana.

21 de agosto de 2010

(s/ título)


Caminhava pelo passeio que beirava uma estrada preta e onde, sentado no lancil, um pequeno chorava.

«Por que choras?» 
Olhou-me rosto molhado. 
«Por causa da confusão.» 
«Que confusão?» 
«Se a pudesse dizer não era confusão.» 
Continuou a verter lágrimas e eu prossegui passeio fora. 

(Há que saber abandonar).

11 de agosto de 2010

Sou de facto o Diabo


Sou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Fiquei fora da Criação. Sou o Deus dos mundos que foram antes do Mundo - os reis de Edom que reinaram mal antes de Israel. A minha presença neste universo é a de quem não foi convidado. Trago comigo memórias de coisas que não chegaram a ser mas que estiveram para ser.


A Hora do Diabo, F. Pessoa, Assírio & Alvim

18 de junho de 2010

Incipit Saramago




Saramago foi um homem que se conseguiu, que se ganhou. Nem a sua morte se pode considerar uma perda porque tudo o que vem dele é só ganho; com os seus eventuais defeitos e qualidades, felizmente. A sua morte só traz perda na medida em que concede uma maior consciência de que o mal da inconsciência vai perdurando. Isto sim, é de pesar. Saramago está em nós. É força ubíqua. Lê-lo, ouvi-lo, pensá-lo, fazê-lo é ganhar. Saramago é uma parte da construção de que, enquanto humanos dignos (se alguma vez o decidirmos ser), precisamos. Se agora somos nós que o somos ― a sua memória ―, então Saramago (re)começa hoje.



18 Junho 2010

3 de junho de 2010

20 de janeiro de 2010

Desiderato (ou: meu deus!)


Meu deus. Que íntimo envolvimento tenho com a figura feminina, que vontade de envolver esses seres de olhos de dádiva e formas de duna. Como me dá para as querer abraçar, fruir, penetrar. Sinto ternura a cada movimento corporal seu, a cada sensação que expressam só no corpo.

Mas como é quase estranho sentir isto por todas. Pelas que vejo que me aprazem. Ah, como as envolveria a todas se pudesse, se houvesse como o fazer senão pelo modo que me é unicamente possível — nunca as envolver, ter só a vontade íntima de. 

Não tenho medo nenhum de amar. Só que me restrinjam o amor. Sinto amor só por ver, ao olhar. Por isso amo todos os dias, como quem vivesse mil vidas em muito pouco tempo, sem que as viva de facto senão a própria e o pessoal desejo impossível de viver as mil. 

Meu deus... Conhece-se tantas vidas e vê-se tantas mais...

Marraquexe: um exemplo. Estranha me apareceste, de tão cheia que te vi. Tão cheia ou foi só a chegada? Houve uma primeira comoção à chegada que iluminou a ideia com que para sempre ficarei de ti. 

Aproximei-me demasiado dos seus olhos. Do seu ténue sorriso que hesitava perante o meu não sorrir de todo. Não desviei porém o olhar. Tinha um corpo total, ao visível, de doçura, elegância natural: parcos seios-ternura sob o vestido curto e algo transparente de um amarelo esbatido. 

A sua pele luzia uma leve substância, um óleo, um suor próprio de quem fica de pé até de madrugada, no Verão. 

Foi aí que a vi. Na madrugada. 

Foi numa viela. Ia repugnantemente acompanhada por um vilipêndio qualquer que não quero descrever senão por quidam ascoroso, um daqueles erros a que não se pode aditar mais nada. 

Mas ela, no fundo, ia sozinha. Como sempre se está, no fundo. 

Quis tocar-lhe o corpo quando a vi. Tocar-lhe, tocar-lhe com as mãos, que é substanciar o que se tocou com os olhos. 

Toquei-lhe só com os olhos. E ela deixou. Tocou-me também assim. Deixei. Vinha vindo e me olhando e tocando com o olhar. (Interesseiramente, apenas? Não sei. Não interessa). Sorria-me quase imperceptivelmente, a ver se a ajudava e lhe sorria de volta para assim completar a construção labial que me queria erigir; mas eu, nem imperceptivelmente. Ela, contudo, manteve o leve sorriso nos lábios. 

Não sorri porque receei que me agarrasse. Que me prendesse. Ou que me repelisse. Mas, primeiro, que me atasse a si ainda mais do que aquando do primeiro vislumbre que tive do seu existir. 

Receei. Sou fácil e fraco no amor porque me enamoro de tudo o que é belo, exposto. 

Podia ter-lhe tocado. Ali mesmo, provavelmente. Na viela. Era uma prostituta. O seu corpo, novo como o meu.

Quis tê-la imediatamente. Desejei-a com a maior ternura. Quis cuidar dela, dar-lhe o rosto e fazer o dela sorrir. Sorrir seguramente. Sem ter de. Pois ela saberia que lhe estaria amando a ternura da sua existência. Quis trepar-lhe as pernas lindas, tão esbeltas e esguias, desnudas como os olhos que as olhavam. Perfeitas passaram, e transportavam sentido.

«Que estás aí a fazer», perpassou-me ainda o espírito, «nessa vida?»

Gostava de ter ficado com ela. Gostaria de a ter salvo do que quer que fosse. De nada. Nada se salva. Gostaria então de lhe ter abraçado a danação. De lhe ter penetrado nos olhos escuros, castanhos, e contemplado o sexo. Em seguida, o contrário.

Queria metê-la toda dentro da minha vida, como outros cá dentro se encontram.

Ah, e como era ela também vilipêndio. Toda ela — Marraquexe. Mas é só amar-lhe a existência, é só, e a salvo disso. Mas e como se encontra já salva dum juízo denigrativo, denegrido — salva do aspecto meramente social, flagelativamente cultural com que a eivam.

Sê livre em mim, que podes!

Trabalhas na profissão que o tempo há mais tempo sustenta, vendendo-te hoje ao mundo que por ti passe. Só eu te não compro. Eu pilhei o que o dinheiro não paga: que foi o amor indiscriminado. To reservo de graça. 

Meu deus! Como eras linda e mais qualquer coisa que foi desejar-te o todo que toda a decência ignora. 

Mas, impressionante, como senti todo o Marrocos bem mais vulgívago que tu, amor ignoto. Como se vendiam bem mais que tu. Quão mais vendidos! 

Penso-te. Tenho o prazer de te pensar. E é tudo. 

Ter a liberdade de um corpo solto, à distância de um olhar fito em um mamilo que quis ser entrevisto. Ter a liberdade desse desejo e o desejo dessa liberdade que o olhar fitou. És eterna e eternamente incorruptível em mim. Sopro puro da minha imaginação. Mancha etérea na minha percepção. Mancha-me! Vulgariza-me com a tua prostração prostituta! Quero ser ao teu nível. 

A minha vontade era ser amado pelos teus braços e sexo e rosto. 

Ah! passar-te os dedos por onde imagino passá-los... quereres-me como te quero, que seria deixares-me que te tivesse, não com propriedade, que isso paga-se, mas com enovelamento outrossim anímico, gratuito, somente à mercê da enoveladeira do amar natural. 

Beijar-te-ia. Ter-te-ia beijado se as coisas se tivessem eventualmente proporcionado como aqui as exauro. 

Mas podia ter-te sorrido. Podia ter sido mais fiel ao que agora escrevo. Um sorriso ténue, como o que me deste. Também, talvez o não tenha feito por a troca ocular me ter surpreendido ao ter sido mantida, sorridente, por ti, ao passares por mim, muito perto, lenta como a manhã. Era cedo. Pele de bronze pálido luzindo. O teu mamilo espiava-me por trás do leve tecido translúcido que o cobria e tu sabia-lo. 

Confesso que o que te amei mais foi todo o teu ser dadivoso. Oferecias-te-me. Não sei se com desejo, se com vontade, se por qualquer necessidade. Mas tal movimento labial que delineia um sorriso como o que vi, não pode ter declinado apenas de um mero e exclusivo interesse pecuniário. Nem me interessa a mim pensá-lo assim. Fazes agora parte do meu imaginário: realidade expandida. És o que eu fizer de ti. Não sou mau como o Homem que te faz só prostituta e te não sabe reinventar. Tem medo de ti, porque lhe mostras quem é, quem ele julga não ser. Eu, amar-te-ia. Existentemente com os olhos e mãos e sexo e corpo aos teus olhos e mãos e sexo e corpo. A minha mente amaria a tua. Tal como te amo agora, só por existires, te ter visto. Existentemente, que é o suficiente para te amar. Mas, ah… se tivesses sido mais tangível, substancialmente mais tangível... 

Quem me dera ter-te sorrido. Que pusilânime vontade, que teve medo de se patentear como a tua. Mesmo assim, mantiveste o teu sorriso, embora hesitante porque hesitei mas, como eu a ti, não deixaste de me olhar. Lembro-me: não desviei os olhos dos teus, ao passares por mim, perto, leve. Foi por não haver um interesse egoístico da minha parte, sabendo eu o que eras, que não sorri. Quis mostrar-te que te amei a existência, com o não te ter sorrido... Pareceu-me inadequado, na altura. Mas era só um sorriso. Havias de ter percebido. Talvez sejas simplesmente mais corajosa, e eu não esteja habituado a tal generosidade. Talvez por isso te não tenha conseguido acompanhar aí. Talvez só por isso. (E o quidam, que ao teu lado seguia a palrar, alienado e inane…) Mas admiro-te a coragem de te teres cravado assim na minha mente. Foi honesto. Não és nenhuma máquina: tens sentimentos; choras. Quem sabe o não estás fazendo agora — fios de prata sobre o teu ouro facial. Lamber-tos-ia até à fonte, lá depositando depois um ósculo, para que passasses a lacrimejar para dentro de mim, já outras lágrimas que não as de antes. E um novo movimento procederia do cerne da tua essência que, talvez murcha ou quase, rápido floresceria, por teres compreendido que eu percebera. Dar-me-ias então sorriso maior porque eu também. 

E, na fúria dos corpos desnudados. Sem princípios nem pudor. Sem nada, que é estar só nu. Sem interior complicado. Sendo o total amplexo do cosmos na unidade de dois corpos sobrepostos. Sendo: sendo: sendo. Etérea fúria de unidade cósmica. Qual mão gigante que côncava nos unisse. Livres! Livres de vós todos e de vossa Mãe, a Convenção! 

Meu deus!... Como jogo com a tua prostituição, a conduzo em meu e em teu favor. Como seguimos perfeitos no guiar lindo de uma estrada possivelmente impossível. Como nos guia a meretrícia, que libertinamente nos deixa ser como gostaríamos, como eu gostaria, pois tu és eu, recriada por mim em mim. Vens de fora: mas só poderei conceber-te como me é possível, como és dentro de mim, como te recreei, e nunca segundo a realidade limitada a que te reduziram o ser e a existência. Existes, existes realmente, mas és na realidade mais imprecisa do que no imaginário em que te refiz — onde dei asas ao sorriso que me deste. 

Sou criança ao recriar-te em devaneio enlevado. Sei poder percorrer todas as passagens que me dás a abrir. Afinal, és uma prostituta. 



Agosto de 2005, 
no autocarro que ia 
de Marraquexe a Essaouira.

18 de dezembro de 2009

Hamburg, Germany


Karolinenviertel (bairro Karolinen), Hamburg: 
an access to a part of the neighbourhood.



Rote Flora, in Sternschanze, Hamburg.
This old building was a theatre, built in 1888, one of the few resisting theatres to the II World War. Presently squatted already for 20 years by anti-capitalist and anti-nazi Autonomen. No State inside!

1 de novembro de 2009

31 de julho de 2009

Corto Maltese




― Ouve, amigo, não tenho nada contra corvos, mas vê se entendes, não posso andar por aí o dia todo contigo... O que dirão os outros?...
― Então, então, Corto, és mesmo tu quem fala assim? Croack... croack... Que importa o que dizem os outros? Croack... croack...

Corto Maltese, Sonho de Uma Manhã de Meados de Inverno, As Célticas, Hugo Pratt 


. . .


[...] segundo a lenda, Merlim foi encerrado por Viviana nas profundezas da floresta da Brocelândia: de vez em quando, Viviana permite-lhe sair para acudir os filhos dos celtas oprimidos e em perigo. Sim, algures, na misteriosa ilha de Avalon, o rei Artur jaz adormecido, velado pela sua irmã, a fada Morgana: um dia despertará para reunir o que resta dos celtas em todo o mundo, a fim de reconstruir o grande reino com que sonhara, reino de justiça, de fraternidade, de liberdade, reino que não existe mas que há-de vir. E Corto Maltese não é outro senão o profeta anunciador de Merlim e de Artur. 

Do Prefácio de Jean Markale a Corto Maltese, As Céltica, de Hugo Pratt

20 de julho de 2009

Sou de facto o Diabo

Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo se nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas ― supondo que haja coisas e relações ― são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique [...].

F. Pessoa, A Hora do Diabo, Assírio & Alvim

10 de julho de 2009

Piratas na Cinemateca


O primeiro filme foi o The Black Swan, de Henry King. Está a ser (e vai continuar, até ao fim deste mês) uma experiência interessante, revisitar as personagens (se não as mesmas, pelo menos da mesma categoria que dantes) de que gostava quando era pequeno e que ia vendo na televisão. Desde cedo me cativaram, como a muitos, decerto, estes marginais que o cinema, numa perspectiva muito romantizada, é certo (mas isso é o cinema), tratou de representar, entre toda a relevância e, creio, conformidade geográfica dos devidos e atraentes cenários.

A par disto, todo o espaço da Cinemateca de Lisboa é extremamente aprazível e bem aproveitado. Esta temporada de pirataria, que começou este mês a invadir o sítio, tem lugar na esplanada do espaço em questão, o que, com o aproximar do calor, é ideia perfeitamente conivente com a temática dos filmes (sendo que de igual modo proporcionam imagens quentes, arejadas, estivais).

O lado técnico também é favorecedor. A larga tela de projecção da esplanada da Cinemateca, que precede o filme erguendo-se lentamente e com relativa majestade de debaixo do solo, e que lembra um pouco o monólito do 2001, Odisseia no Espaço, só que branca e horizontal, é de facto um momento interessante; e outrossim o poderá ser para quem essa imagem do 2001 tenha deixado impressão, mais ainda se se fizerem o favor de evocar, por paródia, o famoso e vital tema de abertura do poema sinfónico Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss (ainda que sejam outras ― todavia com aquela relacionadas ― as cenas do 2001 que esse tema ilustra).

Fica assim pago, à guisa de simples anúncio, o meu tributo à bela e instrutiva Cinemateca de Lisboa, e aos Piratas de sempre! 


Yo ho ho and a bottle of rum!

7 de julho de 2009

«Não entra ninguém na Antígona
 por via do espectáculo e da falsificação da vida.»
Fundada em Junho de 1979, a editora Antígona iniciou a sua actividade com a publicação do livro Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado. Esta obra emblemática anunciava já o programa editorial que se tem vindo a concretizar, sem desvios, ao longo de 30 anos. Hoje, com cerca de 200 títulos, a Antígona mantém a sua paixão inicial pelos textos subversivos, e vai continuar, ainda por muito tempo, a empurrar as palavras contra a ordem dominante do mundo. Com um capital social de «enquanto existir dinheiro, nunca haverá bastante para todos», esta editora tem sobrevivido a todas as crises, adaptando o seu capital variável a cada momento. Refractária, resiste à acção do fogo, sem mudar de direcção. No plano da edição, foi pioneira na forma como valorizou o trabalho do tradutor, dando-lhe força de autor ao colocar o seu nome na capa dos livros, um exemplo que não tem sido seguido por outras editoras. Dos autores publicados, cerca de 150, a maioria era desconhecida do público português, dos quais destacamos: Laurence Sterne, Max Aub, Eudora Welty, Anselm Jappe, Lewis Mumford, Albert Cossery, Bartolomé de Las Casas, La Boétie, Zamiatine, Gabrielle Wittkop, Heinrich Eduard Jacob, Fonollosa, Jean Meslier, Herder, Karl Kraus, Max Stirner, Gómez de la Serna, Robert Bringhurst, Robert Michaels, Sharon Olds, Stig Dagerman, Uzodinma Iweala, Hubert Selby Jr., etc. E assim conseguimos conquistar uma minoria absoluta, que nos sustentou nos 30 anos que agora celebramos festivamente.
Luís Oliveira

21 de junho de 2009

o
dia zangado ou 
porquê→?!
Tu, que te esgotas em banalidade, Tu que te regozijas com as boas estradas do teu país, Tu, que te esbanjas em sonhos estanques, Tu que não andas, Tu, febril das questiúnculas do Febril dos Mandamentos, velhaco arruaceiro do desastre da Arte, embrutecimento do verbo, verborreico vazio, gérmen estéril da Desgraçada Família, Tu o de vida depauperada, dessexuado das preces, realizado na cegueira, Tu, a das pernas fechadas para honrares o Pai e te desprezares a Ti, Tu o homofóbico, Tu, ó misógino, Tu que fazes mofa não vendo que te és escárnio em Si, Tu, que até haverias de gostar de levar no cu mas que teme-lo ainda perante a Moral talvez porque julgues que só expelir coisas dali é que é! Tu! por que insistes em desistir de Ti se até tens com que valer, por que foges para o sonho se a Realidade é o Sonho, Tu camaleão do potencial variegado, por que te surges só monocromo, por que te resumes a embarcação unirreme de movimento circular sobre o eixo paralítico de um círculo autotelicamente irrisório e tonto em águas estagnadas e paisagem em 360º de tontaria redonda e obtusa, por que te desfazes nisso e só andas pelo país a apreciar as sáfias rectas alcatroadas?, Tu que temes as curvas não-das-estradas, que sentes vertigens não-dos-sítios-altos, mas que és efectivamente mais alto que os sítios altos, mais sinuoso que todas as curvas de todas as estradas, que tens em Ti a profundidade do pélago, a voracidade do lobo, a sageza do ofídio, diz-me Tu então!, por que te desprezas em cordeiro cagado pelo carreiro fora?! E diz-me Tu, por que os deixas cagarem-se assim em inúteis caganitas pelo carreiro dos demais — diz-me porquê, diz-me Tu,
porquê→?!
anno 2007

10 de junho de 2009

Da Rejeição da Cegueira ou: Dali até Aqui

(old stuff)

Mora na infantilidade
Do seu ser grande.
Ser é-lhe uma futilidade,
Que da sua prisão nada se expande.

Não reconhece a vida.
Conhece-lhe só a confusão.
Sabe que a odeia (e lhe é querida),
E lhe vive o indizível, emotivo turbilhão.

«Raios! Livre é o ser invisível
Da inexistência ― nenhum!
Só esse é crível...
Porra pra esta merda, quero ser um!»

Mas um dia, ao crescer,
Veio a dizer em razão:

«Hei-de quando for grande
Ser luz do Sol
E iluminar o que escureci.»

26 de maio de 2009

Do amor...


Quero penetrar-te o ânus, 
Ouvir-nos ao tom gemebundo 
Do fogo que faz girar o mundo, 
Entre nossos sôfregos abanos. 

Quero pôr-to na boca, 
Sentir-ta assim cheia, 
Em tua língua de geleia, 
Qual fero animal em doce toca. 

Quero habitar-te a vagina, 
Que é como ter-te toda, 
Não apenas mera foda: 
Coisa bem mais dina.

anno 2005

22 de maio de 2009



E se depois 
E se depois O sangue ainda correr Corre atrás dele 
E se depois O fogo te perseguir Aquece-te nele
E se depois O desejo persistir Consome-te nele
E se depois O sangue ainda correr Corre atrás dele
E se depois

21 de maio de 2009

Para uma possível desmistificação...


«Sou de facto o Diabo», que faz o título deste blogue, foi recuperado de A Hora do Diabo de Fernando Pessoa, e auto-sugere-se, aqui, como metáfora de contradição ao Estabelecido. A Filosofia, a Literatura e a Arte farão os meios. No compromise still!



"...and come again!"